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Os Pajés (Yatamanãu)

Aldeia Utawana, Janeiro 2008. Yatamanãu fumando seus charutos no pátio da aldeia em frente à casa dos homens, em volta de uma fogueira.   ©Makaulaka Mehinako

Yatamã, que significa pajé, é ele que cura as pessoas doentes da comunidade, tirando e eliminando a doença do corpo com o poder do seu próprio corpo.

Para a comunidade indígena do Alto Xingu, sobretudo para nosso povo Mehinako, os pajés têm a mesma importância e o valor de uma equipe multidisciplinar de saúde, que tratam da doença dos pacientes e cuidam da saúde do povo.

Aldeia Utawana-Janeiro 08. Tukuyari Mehinako, kuhiri da aldeia Utawana. ©Makaulaka Mehinako

Entre os pajés existe o mais poderoso, superior aos outros Yatamanãu (pajés), denominado de kuhiri, por possuir a visão no mundo espiritual invisível. Ele costuma fumar seu fumo alongado para poder desmaiar e buscar informações no mundo dos Apapayeim (os bichos sobrenaturais) sobre o paciente que passa mal. Para que ele possa fazer isso, ele precisa prender uma grande porção de fumaça no seu pulmão para que dê efeito e desmaie, sinal de que penetrou no mundo espiritual, procurando saber o que está acontecendo com o paciente. As informações são necessárias e importantes para a família do doente, para que se sintam informadas e fiquem sabendo o que está acontecendo com o paciente, e se o espírito que o fez adoecer ou se foi um feiticeiro que lhe está fazendo mal.   Esse tipo de doença causada por espírito ou feiticeiro nenhuma equipe de saúde consegue tratar, e pode apenas aliviar as dores com remédios, mas não curando.

Colar de caramujo, um dos objetos preciosos na cultura.©Makaulaka Mehinako

Eles são responsáveis por seu paciente, porque são pagos para isso com objetos de valor, seja este em objetos indígenas ou não-indígenas. A família do doente deve pagar antes de começar o tratamento. Dizem que os espíritos que dão poder aos pajés não aceitariam ser pagos depois do trabalho ou que fiquem devendo a eles, pois seria prejudicial ao seu poder, e perderiam poder por causa disso e seu paciente não apresentaria melhora. O que o espírito que dá poder ao pajé mandar, tal é cumprido.                     

Para se tornar um Yatamã não é algo simples. Não é à toa e nem por querer ou pela vontade própria que pessoas se tornam pajés, e sim pela vontade do espírito da natureza que fez mal à pessoa, ficando doente.  Ficar doente de espírito é bom início para se tornar pajé. Ao longo da sua doença ele escolherá o seu destino, se aceita ou não a vontade do espírito que quer lhe fazer tornar um grande pajé. No mundo espiritual o paciente passa bem, já no mundo real está muito mal e apenas uma oferta que fazem ao doente pode fazê-lo tornar-se um grande pajé na vida.

O contrario quando o feiticeiro que faz mal a pessoa, que é uma questão de vida ou morte. Deve achar o fôlego dos kuhiri que irão cuidar do paciente. O feitiço é algo mais complicado que tem na vida dos pajés porque mexe com a vida de pessoa feiticeira que possui poder do mal. Se o doente não estiver na mão do kuhiri a pessoa morre. Por isso é muito importante ter pajé kuhiri ao lado do paciente. Esse é trabalho do yatamã kuhiri que tem visão espiritual que tira o feitiço colocado pelo feiticeiro que amaldiço a outro. Feiticeiro é uma pessoa normal, mas o seu poder é do mal.  


Tukuyari Mehinako, fazendo seu fumo, 2008.  ©Makaulaka Mehinako


Yahati Mehinako, fumando seu fumo alongado-2008. ©Makaulaka Mehinako