
Aldeia Utawana, 02/08. ©Makaulaka Mehinako
Na aldeia a vida parece ser simples, mas não é tão simples assim: muitas obrigações devem ser cumpridas. Os homens e as mulheres fazem sua parte, ou melhor, entre os homens e as mulheres existe a divisão do trabalho. Os homens, ao amanhecer do dia, saem à procura do alimento, pescando e às vezes caçando e cuidando da roça de plantação de mandioca. E as mulheres saem para a roça para buscar mandioca e preparam a comida para abastecer a casa. Isso não é fácil.
A pescaria é atividade dos homens para alimentar a família, filhos, mães e netos. Se não buscar peixe para a casa, a família passará fome. Não se deve depender da comida do outro. Os filhos ajudam no trabalho de seus pais e mães, plantando e replantando a rama de mandioca, o mais importante entre os alimentos.

Menina ralando mandioca, Fevereiro de 2008. ©Makaulaka Mehinako
As mulheres também fazem seu trabalho, indo na roça colher o que seu marido, seu filho ou seu irmão plantou de mandioca, carregando-a no cesto cheio sobre a cabeça e a preparando. As meninas menores ajudam a sua mãe, tia ou irmã no trabalho. De forma geral o cotidiano delas é abastecer a casa com comida, fazendo beiju, mingau, buscando água, ralando mandioca, fazendo perereba, cozinhando peixe, cuidando da criança e do esposo, buscando lenha com ele e, às vezes, buscando-a sozinha Alem disso, as mulheres produzem artesanato e praticam outras atividades.
Quando elas vão à roça colher mandioca costumam sair bem cedo, porque será o trabalho mais duro e longo do dia. Primeiro colhem e a descascam. Depois ralam-na em uma panela grande de 60 litros e espremem sua massa com esteira. Da panela elas tiram o polvilho. Preparam ainda o caldo para fazer perereba numa outra panela de 60 litros de barro. Com esse trabalho se encerra o trabalho do dia já no período de tarde ou no final desta, se for o caso.
A responsabilidade dos homens são as pescarias, mas também caça, roça, planta e replanta a mandioca. Enfim, também cuidam, carpem e limpam a roça, fazem trabalho de mutirão e produzem seus artesanatos.
O trabalho de roça e plantio que o homem faz tem um ano de ciclo. Primeiro roça-se o local, depois derruba-se as árvores do local e aguarda-se secá-lo para depois queimá-lo e limpá-lo. Ao terminar de limpar o local, cavam-se covas para plantar a rama de mandioca. Quando esta cresce, é preciso carpir e limpar os capins para não enfraquecer a plantação. Completado um ano de ciclo, já pronta, começa sua colheita. Precisa replantar o que a mulher colheu para que não acabe. Esse é o dia-a-dia do homem na aldeia.
Os meninos precisam aprender o trabalho de roçar e plantar a mandioca para que se mantenha o cultivo futuramente, senão não saberia garantir seu futuro em termos de alimentação. Hoje em dia isso está mudando, os Mehinako não precisam tanto da roça para se manter, pois sua família pode ajudar a fornecer o que necessita, comprando, às vezes, de outra pessoa. Apesar de não ver isso corretamente na cultura, de depender da sua família ou comprar polvilho de outra pessoa, teve-se que aceitar, uma vez que a necessidade leva isso a acontecer. Isso é aceito até porque ninguém exclui ninguém com alimento, todos devem saber compartilhar com o que têm.

Pananu Mehianako espremendo massa de mandioca. Fevereiro de 2008. ©Makaulaka Mehinako

Descascando mandioca. Fevereiro de 2008. ©Makaulaka Mehinako